
Srªs e Srs. eleitos da nossa freguesia!
Comemorámos ontem 44 anos que, numa alvorada, numa Lisboa nevoenta mas apesar disso gloriosa, acordada com a senha "E depois do adeus" e ao som de "Grândola, Vila Morena", fomos tomando consciência que por acção das forças armadas se virava uma página da nossa história.
Uma página a que muitos de nós felizmente já não assistiram presencialmente, mas ainda assim uma página negra, fechada e sinistra que rejeitamos e rejeitaremos a todo o custo.
A nova página que se abria na altura à nossa sociedade, em contraponto com a anterior, era uma página aberta, colorida, que nos permitia sonhar com uma sociedade moderna, mais equitativa, não isenta de lutas, é certo, de futuro mais ou menos incerto, mas, como diz o poeta e muito bem, em que o sol brilhasse para todos nós.
Volvidos que são estes quarenta e quatro anos, muito foi feito; é certo!... contudo, não se poderá dizer que atingimos uma sociedade justa e muito menos, ainda, que o sol brilha para todos nós.
O fosso entre ricos e pobres, verdadeira chaga da nossa sociedade, não foi diminuído, podemos mesmo admitir que foi ainda aumentado.
Excluídos da sociedade continuam a haver em grande número e, de uma forma geral, a par com as perspectivas abertas pelo vinte e cinco de abril, muitas respostas estão por dar.
Às novas necessidades que então se perfilaram e ainda se perfilam numa sociedade justa, democrática e de direito, muito há a fazer para que elas se possam considerar atendidas.
A justiça, pese embora alguns progressos, não deixou de ser lenta, arcaica, cara, com uma boa dose de cinzentismo, que leva muitas vezes o cidadão comum a colocar-se à margem da mesma, por não conseguir entender e muito menos superar as contrariedades, que por via disso estão para lá do seu horizonte, bem como da sua capacidade de acção.
A democracia funciona!.... não a democracia com vista ao socialismo intrínseca ao propalado então pelas forças políticas, mas antes, isso sim, uma democracia burguesa assente no poder económico, que justifica o que atrás se disse quanto aos excluídos da sociedade.
Não podemos nem devemos, com este estado de coisas, deixar de estar atentos. A acção cidadã deve estar sempre no nosso horizonte, sobre cujo limite se adensam nuvens carregadas de sinais, que nos revelam que a democracia não é um bem adquirido em definitivo, mas sim que poderá ser sufocada, ou mesmo suprimida se deixarmos que as condições que caracterizam esses sinais o possam propiciar.
Liberdade sempre!
Viva o vinte e cinco de Abril!!!
Pelo Bloco de Esquerda.
Augusto Lourenço